sexta-feira, 27 de março de 2026

 Diário de Bordo: Avaliação em Contextos de Elearning


Bem-vindos ao meu Diário de Bordo,

Tema 1: Estado da Arte da Avaliação em eLearning
Como tenho partilhado nas minhas intervenções, iniciei este mestrado com uma posição resistente e algo cética face à integração da tecnologia no ensino, essencialmente no ensino superior com o qual contacto profissionalmente. No entanto, este percurso tem-me levado, a passos curtos, a desenvolver uma melhor aceitação e um otimismo muito moderado, mantendo sempre uma postura prudente, crítica e com algumas reservas.

O trabalho prático que desenvolvemos neste tema ilustra perfeitamente a razão de ser deste meu posicionamento. Ao utilizarmos o NotebookLM para analisar o estado da arte da avaliação em eLearning, testámos a fidedignidade desta tecnologia. A IA conseguiu, de facto, sintetizar corretamente a atual transição da psicometria para a edumetria, destacando uma cultura focada na aprendizagem formativa, contínua e autêntica.

Contudo, ao cruzar esta síntese tecnológica com estudos científicos recentes (Heil & Ifenthaler, 2023; Tahir et al., 2025), as minhas reservas iniciais provaram-se fundamentadas e com sentido prático: a IA simplifica demasiado a realidade e sugere uma evolução linear para modelos puramente formativos, falhando redondamente ao não reconhecer a complexa coexistência das práticas formativas e sumativas reais. Mais ainda, a resposta da IA carece de fundamentação teórica robusta e aborda de forma leviana problemas estruturais graves, omitindo as reais desigualdades no acesso tecnológico e o impacto da avaliação nos estudantes mais vulneráveis.

Na prática, o trabalho neste tema, solidifica o meu atual otimismo moderado e cauteloso. A tecnologia revela-se uma ferramenta útil e promissora, mas justifica-se plenamente a minha postura crítica: ela nunca pode substituir a nossa capacidade analítica e humana. A avaliação em contextos digitais exige uma mediação intencional, cabendo-nos sempre a nós manter o controlo do processo, validar a informação de forma rigorosa e não ceder ao facilitismo das respostas "instantâneas" e simplificadas.

 

Referências bibliográficas:

Heil, J., & Ifenthaler, D. (2023). Online assessment in higher education: A systematic review. https://doi.org/10.24059/olj.v27i1.3398

Tahir, M. H. M., Saputra, S., Othman, S., Mohamad Shah, D. S., Sulaiman, S. H., Azhari, M. A., & Mohandas, E. S. (2025). Online assessment in higher education: A systematic literature review. https://doi.org/10.31893/multirev.2026024


terça-feira, 24 de março de 2026

De Correntes a Ecossistemas Complexos: Habitar a Educação Digital

A reflexão sobre os ecossistemas de educação digital levou-me, inicialmente, a compará-los a uma “corrente”, cuja força dependeria do elo mais fraco. Contudo, à luz das perspetivas ecológicas e educomunicacionais de Moreira (2025), reconheço que esta metáfora é muito redutora para compreender a complexidade dos contextos educativos contemporâneos.

Os atuais ecossistemas de aprendizagem configuram-se como redes sociotécnicas dinâmicas, marcadas pela interatividade, hibridismo e ubiquidade. Neles, o conhecimento não segue um percurso linear, mas emerge das interações entre sujeitos, tecnologias e contextos. Ainda assim, importa evitar novas simplificações ou até mesmo metáforas como a de “organismo vivo”, podem ocultar tensões, desigualdades e assimetrias presentes no digital.

Neste quadro, a tecnologia deixa de ser entendida como um mero instrumento neutro. Plataformas, algoritmos e sistemas de Inteligência Artificial participam na configuração das práticas educativas, ainda que a sua “agência” deva ser compreendida como mediada e distinta da humana. Assim, o foco desloca-se para as relações de interdependência entre atores humanos e não humanos.

Ser digitalmente competente implica, hoje, mais do que operar ferramentas, uma vez que exige a capacidade de habitar criticamente os ambientes digitais. para alcançar esta capacidade torna-se fundamental desenvolver a presença cognitiva (pensamento crítico), a relacional (empatia e construção de vínculos) e a interativa (participação e co-criação). Desta forma, as “pedagogias da presencialidade” remetem para uma presença significativa nas redes, e não apenas para a copresença física.

Também o papel do professor se transforma, passando a assumir funções de designer de aprendizagem e mediador ético, orientando os alunos para uma participação mais ativa, crítica e colaborativa. Importa, contudo, reconhecer que estes ecossistemas não são neutros nem universalmente acessíveis, sendo atravessados por desigualdades que exigem uma abordagem crítica.

Abandonar a metáfora da “corrente” implica repensar a educação digital como um sistema complexo, onde aprender não é apenas utilizar tecnologias, mas participar, interagir e construir conhecimento de forma situada.

E vocês, já abandonaram a mentalidade da “corrente” para começarem a habitar criticamente e a tecer as vossas próprias conexões nestes ecossistemas digitais?

Saudações digitais!

 

Referências bibliográficas:

Moreira, J. A. (2025). Novos Ecossistemas de Aprendizagem nos Territórios Híbridos da Noosfera. Santo Tirso: Whitebooks. http://hdl.handle.net/10400.2/20378

segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

 

Seleção de três práticas educacionais abertas inovadoras

 

1)  MIT OpenCourseWare (OCW)

A escolha do MIT OpenCourseWare (OCW) justifica-se pelo seu papel pioneiro na revolução global do acesso ao conhecimento desde 2001, oferecendo o currículo integral do MIT de forma gratuita e sem necessidade de registo. Esta prática materializa o conceito de educação aberta ao eliminar barreiras e promover a equidade.

 

Aplicação dos 5R de David Wiley

O impacto do OCW é sustentado pela permissão legal de interagir com os conteúdos através do licenciamento Creative Commons (CC BY-NC-SA) (informação externa), o que permite:

­   Reter e Redistribuir: Os utilizadores podem descarregar os ficheiros para uso posterior e partilhá-los livremente com terceiros.

­   Reutilizar: Os materiais servem tanto para a aprendizagem ao longo da vida como para o ensino formal.

­   Rever e Remisturar: A plataforma incentiva explicitamente os utilizadores a modificar e remisturar os recursos, desde que citada a fonte.

 

Impacto

Para além de ter lançado o movimento global de REA, o MIT OCW evoluiu para uma plataforma adaptada a dispositivos móveis, focando-se em desafios globais como a Inteligência Artificial e as alterações climáticas. A utilização de mídias dinâmicas (videoaulas, podcasts e realidade aumentada) garante que o conhecimento acompanhe a aceleração da modernidade, mantendo-se como um reflexo vibrante do ensino transformador.

O MIT OCW já atingiu mais de 500 milhões de visitas, consolidando-se como uma ferramenta essencial para o Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 4 da ONU (Educação de Qualidade), ao permitir que o conhecimento de elite seja um recurso público global.

 

 

2)    OpenStax (Rice University)

A OpenStax é uma iniciativa global sem fins lucrativos, sediada na Universidade Rice, que transformou o mercado editorial académico ao fornecer manuais escolares de alta qualidade e gratuitos. A sua robustez reside na qualidade editorial. Ao contrário de outros recursos abertos que podem ser fragmentados, a OpenStax produz manuais completos que passam por um rigoroso processo de revisão por pares (peer-review), garantindo que o conteúdo é equivalente ou superior aos manuais comerciais. Esta prática foca-se na equidade financeira, removendo a barreira do custo dos manuais, que muitas vezes impede o sucesso dos estudantes no ensino superior.

Aplicação dos 5R de David Wiley:

­   Reter: Os estudantes podem descarregar o manual em formato PDF ou aceder via Web de forma permanente, sem que o acesso expire ao fim de um semestre.

­   Reutilizar: Professores de todo o mundo utilizam estes livros como o recurso principal das suas cadeiras, integrando-os em sistemas de gestão de aprendizagem (LMS) como o Moodle ou Canvas.

­   Rever e Remisturar: Graças à licença Creative Commons Attribution (CC BY), os docentes podem alterar capítulos, atualizar dados estatísticos para o seu contexto nacional ou combinar secções de Química e Biologia para criar um recurso interdisciplinar.

­   Redistribuir: A plataforma incentiva a partilha livre do ficheiro original ou das versões modificadas, permitindo que o conhecimento se espalhe sem custos de licenciamento.

Impacto:

A OpenStax já poupou mais de mil milhões de dólares a milhões de estudantes em todo o mundo, sendo um exemplo de escala e sustentabilidade no movimento REA.

 

3)    Repositório Institucional de Recursos Educacionais Abertos — Universidade Aberta (UAb)

O Repositório Aberto da UAb é a infraestrutura digital que gere, preserva e dissemina a produção intelectual e pedagógica da única universidade pública portuguesa de ensino a distância. A sua importância estratégica prende-se com a especialização em Educação a Distância (EaD). O repositório não é apenas um arquivo de teses, mas um centro de Recursos Educacionais Abertos desenhados especificamente para contextos digitais. É fundamental para a democratização do conhecimento no espaço lusófono, servindo de modelo pedagógico para instituições no Brasil e nos PALOP, promovendo o "Bem Comum" através de uma língua partilhada.

Aplicação dos 5R de David Wiley:

­   Reter: Garante a preservação a longo prazo de objetos de aprendizagem digitais, assegurando que o investimento público na criação de conteúdos se mantém acessível.

­   Reutilizar: Os recursos (vídeos, roteiros de aprendizagem, e-atividades) podem ser usados por aprendentes autónomos ou integrados noutros cursos de e-learning.

­   Rever e Remisturar: Ao disponibilizar guias pedagógicos abertos, permite que outros professores adaptem as metodologias de ensino digital da UAb às suas próprias unidades curriculares, inovando sobre o que já foi validado pela academia.

­   Redistribuir: Através da política de Acesso Aberto (Open Access), o repositório facilita a circulação de conhecimento científico e pedagógico sem barreiras geográficas ou económicas.

Impacto:

A UAb tem sido pioneira em Portugal na implementação de políticas de auto-arquivo, influenciando a criação de padrões de qualidade para REA e fortalecendo a autonomia dos aprendentes que dependem da flexibilidade do ensino digital.

domingo, 11 de janeiro de 2026

 

Seleção de 2 REA disponíveis online

 

 

1)    1) Seleção

REA 1)

Serra, I., Moreira, J., Dias-Trindade, S., & de Melo, T. (2024). Competências digitais e suas aplicações pedagógicas: uma avaliação das habilidades docentes no ensino superior. Pesquisa em Foco, 29(2).

http://hdl.handle.net/10400.2/17078

 

REA 2)

Cardoso, T., & Pestana, F. (2024). Metodologias Ativas no Ensino Superior: uma proposta para desenvolver a wikiliteracia. Medi@ ções, 12(1), 66-79.

http://hdl.handle.net/10400.2/16219

 

2)    2) Critérios de seleção

Critério 1: Estar disponível no Repositório Aberto da Universidade Aberta

Critério 2: Ser escrito em língua portuguesa

Critério 3: Ser da autoria de algum(a) docente ou investigador(a) da Universidade Aberta

Critério 4: Ser recente/atual (menos de dois anos)

Critério 5: Estar centrado no ensino superior e abordar as competências dos decentes e as práticas pedagógicas do ensino à distância.

 

Justificação:

Atendendo que este trabalho está inserido numa UC do Mestrado em Pedagogia do E-learning do Universidade Aberta, fez todo o sentido para mim, que a seleção de REA fosse orientada por dois critérios relacionados com a Universidade, ou seja, que estarem disponíveis no seu Repositório Aberto e que sejam da autoria de docentes e/ou investigadores da Universidade.

Num mundo cada vez mais globalizado, guiado pela língua inglesa, sempre que possível “forço” o uso da língua portuguesa por forma a mantê-la viva e ativa neste contexto académico, dai o critério da escrita em língua portuguesa.

A informação e conhecimento circulam, nos dias de hoje, a uma velocidade estonteante, com a produção de uma enorme quantidade de trabalhos a nível global. A outra face desta moeda impacta na desatualização, ou seja, hoje os trabalhos tendem a ficar desatualizados, também, com maior rapidez, pelo que usei como critérios trabalhos publicados nos dois últimos anos, garantindo de alguma forma a sua atualidade.

Por fim, usei o critério de norteou a minha inscrição neste Mestrado, tentando alinhar este trabalho, à semelhança dos restantes, com o meu objetivo final, ou seja, centrado no contexto do ensino superior e focado nas competências dos docentes e em práticas pedagógicas atuais que melhorem o ensino à distância.

 

3)    3) Adaptações

Atendendo às caraterísticas dos REA selecionados, não se aplica a questão das adaptações

 

4)    4) Modo como seriam usados numa atividade de aprendizagem com planificação

Atendendo às caraterísticas destes dois REA, se os usasse numa atividade de aprendizagem, disponibilizá-los-ia aos alunos e solicitaria duas atividades:

a)     Que elaborassem uma breve aprestação (powerpoint) sobre cada um dos artigos

b)    Resposta a um quiz (teste VF) para ca um dos artigos, com as seguintes afirmações:

Quiz REA 1

1)    A competência digital docente é entendida como um conceito multidimensional que integra não apenas conhecimentos técnicos, mas também valores, crenças e atitudes éticas perante o uso das tecnologias. (V)

2)    O principal objetivo da introdução das TDIC no ensino superior é garantir que os docentes saibam operar equipamentos modernos, como lousas interativas e dispositivos móveis, independentemente da estratégia pedagógica utilizada. (F)

3)    A literacia digital é considerada uma competência-chave para o século XXI, pois contribui não só para a formação académica, mas também para o crescimento económico sustentável, a inclusão social e o exercício da cidadania. (V)

4)    A transição de modelos instrucionais passivos, dirigidos pelo professor, para modelos ativos, centrados no estudante, é uma das mudanças pedagógicas impulsionadas pelo uso adequado das tecnologias digitais. (V)

5)    O desenvolvimento da fluência digital docente é um processo que se conclui com a obtenção de um grau académico, deixando de ser necessária a atualização contínua em workshops ou conferências após essa etapa. (F)

 

Quiz REA 2

6)    A "Wikipedagogia" fundamenta-se na Educação Aberta e promove o desenvolvimento de uma literacia holística denominada Wikiliteracia. (V)

7)    A Wikipédia é considerada um Recurso Educacional Aberto (REA) devido ao facto de possuir uma licença aberta que permite reutilizar e editar conteúdos. (V)

8)    Na proposta pedagógica apresentada, os estudantes limitaram-se a ler artigos da Wikipédia, sem intervir na criação ou edição de conteúdos. (F)

9)    A transição de uma metodologia centrada no professor para uma centrada no aluno é um dos eixos das Práticas Educacionais Abertas (PEA) mencionadas no texto. (V)

10) A utilização do software MediaWiki no curso teve como objetivo substituir ferramentas de comunicação síncrona, como o Zoom. (F)

sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

 

RECENSÃO CRÍTICA " Digital Transformation of Teaching & Learning: A Human Centered Approach"

Coordenação de Rui Silva

 

1. Resumo

O vídeo resulta de uma exposição alargada sobre o conceito de transformação digital e das suas implicações no panorama educativo, nomeadamente no caso concreto do ensino superior, seguindo uma linha de orientação marcada pela importância e centralidade do ser humano neste processo de transformação. Coloca transformação digital como um processo contínuo com início em dados, que evoluem consecutivamente para informação, para conhecimento e, desejavelmente, para sabedoria.

Como apoio teórico, apresenta, essencialmente dois autores: 1) Alvin Toffler, colocando a informação como determinante do poder numa sociedade de informação, com base na curva da duplicação do conhecimento e com destaque para o conceito de “meia-vida do conhecimento” como introdução da questão da crescente obsolescência e desatualização do saber onde a transformação digital se destaca como a principal estratégia de adaptação da sociedade. 2) Manuel Castells, com a introdução do conceito de sociedade em rede, que destaca o papel estruturante das tecnologias de informação e comunicação na atual organização social, onde a transformação digital surge não apenas como um fenómeno tecnológico, mas sim como um processo sistémico e global de alterações (organizacionais, sociais e culturais).

No domínio do ensino superior, a transformação digital é apresentada como uma exigência estratégica para a competitividade e sustentabilidade das instituições e que no passado recente já foi bastante notada com a pandemia Covid-19.
A educação digital é alvo de destaque como integradora de modalidades como e-learning, m-learning e u-learning, associadas a novos conceitos como ecossistemas digitais e gémeos digitais. Estando o ser humano no centro da abordagem deste vídeo sobre a transformação digital, a tecnologia é apresentada como meio e não como fim, ou seja, a transformação digital é apresentada sob uma orientação com fortes princípios humanistas e pedagógicos.


2. Avaliação crítica

2.1 Pontos fortes

O vídeo tem muitos aspetos positivos. Um deles é a clareza conceptual que é usada para definir e abordar variados aspetos onde a sua definição e enquadramento se torna essencial para a perceção da transformação digital, como é exemplo de dados, informação, conhecimento e sabedoria.

Outro aspeto positivo, que atenua bastante a distância temporal das fontes teóricas que sustentam a apresentação e que acima foram referidas, é a sua articulação com questões emergentes e atuais.

Outro aspeto positivo, de merecido destaque, é centralidade da componente humana na abordagem à transformação digital no ensino superior, por oposição a muitas outras perspetivas cujo foco é, quase essencialmente, a tecnologia. O autor da verdadeira importância à tecnologia, mas como um meio e não como o fim em si.
Por fim, um outro aspeto muito positivo abordado e que muito contribui para uma boa compreensão destas matérias é a valorização das competências digitais e a, fundamental, literacia digital.


2.2 Pontos fracos

Como aspetos menos positivos no vídeo, surge a sua sustentação em trabalhos publicados no século passado (1980 e 1996), que não obstante qualidade e pertinência, certamente foram planeados e escritos num contexto muito diferente do atual.
Outro aspeto que constitui um ponto fraco deste vídeo, é ausência de fontes atuais, com trabalho empírico recente que permita sustentar várias das afirmações feitas, que não obstante serem bem acolhidas carecem desta robustez, que trabalho empírico ofereceria.
Com alguma relação com o aspeto anterior, faltarão também dados e casos concretos para melhor sustentar o conceito de transformação tecnológica que nos é apresentado, ou seja, de forma continua e dinâmica. Sendo continua e dinâmica, a forma como é apresentando não salienta estas caraterísticas.

Outro aspeto que deveria estar mais bem aprofundado, e necessário para uma análise holística da transformação digital no ensino superior, prende-se com os desafios estruturais a esta transformação nas instituições de ensino superior, como por exemplo a resistência à mudança e as desigualdades, diferentes caso a caso, no acesso às tecnologias.

3. Conclusão

O vídeo é muito interessante, como muitos aspetos positivos, que foram realçados e que se constitui como um contributo relevante para melhor compreender o que é e como se poderá operacional a transformação digital no ensino superior, nunca afastando o fator humano do centro deste processo. Este aspeto é um alerta muito relevante para a realidade atual, onde a tecnologia e toda a sua envolvente têm um papel central e um poder enorme, para que quando se planeia ensinar e aprender, este peso da tecnologia tem de recentrado pelo fator humano.

O vídeo apresenta uma ampla abordagem da transformação tecnologia no ensino superior, mas para ter uma robustez diferente, requereria uma parte empírica desenvolvida e atual bem como uma abordagem mais profundada aos constrangimentos institucionais.
No entanto, e como síntese final, o vídeo é muito interessante na forma como aborda a questão e é sem sombra de dúvidas uma boa base para investigações futuras sobre a, necessária, transformação digital no ensino superior, muito orientada para valores humanistas e pedagógicos.


Fontes do vídeo

Toffler, A. (1980). The third wave. William Morrow
Castells, M. (1996). The rise of the network society. Blackwell Publishing.

 

Equipa PI: Lara Ramos, Paula Coelho e Rui Silva

 

Reticularização e datificação dos processos educativos

Trabalho de Grupo

 

RECENSÃO CRÍTICA "The Limits of Learning – Kids in Crisis"

Coordenação de Paula Coelho

 

Introdução
A pandemia transformou-se num laboratório inesperado da educação em rede, mostrando-nos, com uma clareza difícil de ignorar, tanto o potencial como as fragilidades da aprendizagem digital. O vídeo The Limits of Learning – Kids in Crisis (DW) oferece um retrato direto, não teórico, mas vivido, do que acontece quando a escola deixa de ser lugar e se torna fluxo, um conjunto de interações mediadas, distribuídas e profundamente dependentes da infraestrutura técnica e social.

Esta realidade dialoga de forma particularmente fecunda com os três recursos de referência para esta atividade. Grajek (2021) lembra que a transformação digital “não é sobre tecnologia, mas sobre mudança organizacional profunda”, algo que o vídeo ilustra de forma evidente. Bates (2017) recorda que a aprendizagem online exige desenho pedagógico, apoio e estrutura e o vídeo demonstra o que acontece quando esses pilares ficam ausentes. E Teixeira, Bates & Mota (2019) defendem um futuro para a educação assente em redes abertas e aprendizagem distribuída, mas a crise pandémica expõe como essa transição, quando forçada e desigual, pode agravar vulnerabilidades já existentes.
Assim, este vídeo funciona como ponto de observação privilegiado para analisar a reticularização e a datificação dos processos educativos à luz dos desafios contemporâneos.


Resumo do vídeo

O documentário acompanha vários jovens alemães durante o ensino remoto obrigatório, revelando três linhas centrais:

a) Impactos emocionais e motivacionais

Os estudantes relatam perda de rotinas, ansiedade, falta de motivação e um sentimento generalizado de desconexão. Muitos descrevem uma espécie de “cansaço existencial”, provocado pela ausência de contacto humano e estrutura.
b) Desigualdades ampliadas

O vídeo evidencia contrastes profundos, havendo alunos com espaços próprios, dispositivos adequados e apoio familiar e outros que estudam em ambientes barulhentos, partilhando equipamentos e sem acompanhamento. A escola física desaparece e com ela a única garantia de equidade para muitos jovens.

c) Limitações pedagógicas e institucionais

Os professores esforçam-se por adaptar práticas, mas enfrentam sobrecarga, falta de formação e ausência de coordenação. Os pais acumulam o papel de tutores improvisados. Tudo isto evidencia que tecnologia sem estrutura não produz aprendizagem significativa.
No conjunto, o vídeo mostra que a escola em rede não é apenas um espaço técnico e sim, um ecossistema que depende de condições humanas, sociais e institucionais.


Análise crítica e articulação teórica

A rede parece oferecer uma promessa de continuidade educativa, a impressão de que bastaria estar online para que a escola continuasse a existir. O vídeo mostra, porém, que essa promessa esbarra em desigualdades sociais, emocionais e materiais que a tecnologia, por si só, não resolve. Embora o vídeo seja produzido num contexto de emergência, ele expõe limites estruturais da reticularização educativa, que permanecem relevantes muito para além da pandemia.

Do ponto de vista teórico, os três autores referidos para a realização deste trabalho, ajudam a clarificar esta leitura. Grajek (2021) lembra que a transformação digital não é um upgrade técnico, mas uma “mudança cultural sustentada por estratégia, liderança e capacidades institucionais”. No vídeo, essa ausência de alinhamento é evidente, os estudantes recebem tecnologia, mas não recebem ecossistemas de aprendizagem capazes de transformar essa tecnologia em condições reais de sucesso. A desigualdade não está na rede em si, mas na falta de uma visão institucional que articule infraestrutura, pedagogia e apoio humano.

Bates (2017) sublinha que a aprendizagem online eficaz exige intencionalidade, desenho pedagógico e compreensão dos modos como os media moldam a interação. O vídeo não contradiz esta posição, pelo contrário, evidencia a pertinência da sua posição, ao mostrar contextos onde a migração para o digital ocorreu como simples transposição da sala de aula para o ecrã, sem o planeamento que permitiria uma verdadeira experiência de aprendizagem online. Os jovens descrevem a perda de ritmo, de significado e de acompanhamento, sinais de que o ensino remoto, tal como implementado, ignorou o princípio básico de Bates: “a tecnologia não é neutra, ela reconfigura o que é possível aprender e como aprender”.
Teixeira, Bates & Mota (2019) defendem que o futuro da educação aberta exige instituições flexíveis, conectadas e capazes de operar em rede. O vídeo mostra como, em contexto de emergência, muitas escolas permanecem ancoradas em modelos rígidos, revelando a distância entre o ideal de abertura e a realidade prática. A crise revelou que a reticularização não se decreta, constrói-se. E constrói-se através de práticas, políticas e suportes que o vídeo demonstra ainda serem frágeis ou inexistentes.
Finalmente, o vídeo oferece um contributo importante para o debate sobre autoformação. Se a sociedade em rede favorece maior autonomia, como muitos teóricos defendem, o vídeo mostra que essa autonomia precisa de condições sociais, emocionais e pedagógicas para emergir. Quando estas falham, a rede não emancipa, desorienta. Este ponto confirma a advertência dos autores, que a tecnologia pode ampliar oportunidades, mas também pode amplificar vulnerabilidades.

Assim, a força do vídeo reside na sua capacidade de ilustrar, de forma concreta e humana, que a transformação digital exige ecologias de aprendizagem, e não improvisos e que a promessa da educação em rede só se cumpre quando articulamos tecnologia, pedagogia e cuidado relacional.


Conclusão
O documentário The Limits of Learning – Kids in Crisis oferece uma visão honesta do que acontece quando a reticularização da educação é feita por necessidade e não por projeto. Confirma que o digital é indispensável, mas insuficiente, que a rede amplia possibilidades, mas também vulnerabilidades e que a aprendizagem, para ser sustentável, exige presença, apoio, tempo e comunidade.

A partir dos três autores analisados, torna-se claro que a transformação digital na educação só cumpre a sua promessa quando articulada com políticas de equidade, formação docente, infraestrutura adequada e um desenho pedagógico intencional. A crise mostrou os limites da improvisação, mas também abriu espaço para repensar modelos, práticas e finalidades.

Mais do que um retrato de uma época, o vídeo é um ponto de partida para refletir sobre o futuro da educação num mundo profundamente reticularizado. Um futuro que não será apenas técnico, mas ético, político e humano.


Bibliografia
Bates, A. W. (2017). Educar na era digital: design, ensino e aprendizagem (versão digital). Artesanato Educacional / ABED. (Obra original publicada em inglês como Teaching in a Digital Age).

Grajek, S. (2021). How Colleges and Universities Are Driving Digital Transformation Today. EDUCAUSE Review.

Teixeira, A., Bates, T., & Mota, J. (2019). What future(s) for distance education universities? Towards an open network-based approach. RIED. Revista Iberoamericana de Educación a Distancia, 22(1),107–126.
http://dx.doi.org/10.5944/ried.22.1.22288

DW Documentary. (2021). The Limits of Learning – Kids in Crisis [Vídeo]. YouTube. https://youtu.be/8FKR35OidyU

Equipa PI: Lara Ramos, Paula Coelho e Rui Silva

 

quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

 Reticularização e datificação dos processos educativos

Trabalho de Grupo

  

RECENSÃO CRÍTICA "Transforming the Future of Education through Advanced Technology"

Coordenação de Lara Ramos

 

Neste vídeo intitulado “Transformar o Futuro da Educação através de Tecnologia Avançada”, faz-se uma retrospetiva da evolução da Educação ao longo dos tempos, começando por recordar o modelo educativo inspirado na estrutura fabril da revolução industrial, massificado, padronizado e rotineiro, centrado na hegemonia do professor e dos livros como detentores do conhecimento, em que os métodos expositivos e de memorização eram a regra. Veicula-se a necessidade de uma “revolução industrial”, “na qual a ciência educativa e a criatividade da tecnologia educacional se combinam para modernizar os procedimentos grosseiramente ineficientes e desajeitados da educação convencional” (Sydney L. Pressa, 1924). Ao longo do vídeo, destaca-se o impacto das tecnologias digitais, desde o computador pessoal até à inteligência artificial (AI), realidade virtual (RV), terminando na Indústria 4.0. Veicula-se a necessidade de integrar a tecnologia de forma construtiva e positiva nos (novos) modelos de aprendizagem, colocando-se em evidência a obsolescência dos modelos tradicionais de ensino vitorianos, expositivos. A tecnologia, mais do que assustadora, segundo as palavras do vídeo, pode ser libertadora, facilitando aos professores a personalização dos modelos de ensino-aprendizagem, que devem ser repensados à luz da 4ª Revolução Industrial. O papel das competências digitais não está esquecido neste processo, mas, mais do que nunca, criatividade, colaboração, comunicação e pensamento crítico são essenciais para alavancar esta transição. O vídeo termina colocando em evidência o desafio das instituições estarem à altura da capacitação dos seus aprendentes para um mundo interconectado e em constante mudança.

 
Como pontos fortes deste vídeo, destaca-se a retrospetiva histórica e contextualizada, na qual se mostra a urgência de uma transição dos modelos tradicionais para os novos paradigmas educativos, que devem abraçar a integração da tecnologia. O vídeo incita-nos à mudança, ao fechar com uma pergunta provocadora: como vamos nós tirar partido deste mundo hiperligado, sendo ele já uma realidade? A diversidade de interlocutores, entre os quais professores, especialistas e estudantes, faz legitimar a argumentação sobre a urgência desta transformação. Salvaguardam-se as competências que nos diferenciam das máquinas – aquelas que não podem ser automatizadas, amplamente denominadas de “soft skills”. O pensamento crítico, a criatividade, a colaboração e a comunicação são o eixo central da Educação 4.0. Num discurso contínuo de otimismo, do início ao fim do vídeo, sublinha-se ainda como vantagem o aumento da taxa de retenção de conteúdos, por parte dos alunos emersos em ambientes de realidade virtual, reforçando o papel positivo das novas tecnologias.

 

Como pontos fracos, destacam-se várias questões deixadas em aberto, não se fazendo um contraponto desta mudança: não são mencionados os riscos associados à transformação das práticas educativas por via da tecnologia, como, por exemplo, a exclusão ou iliteracia digital, a dependência tecnológica, a perda de pensamento crítico e as questões éticas ligadas à AI. Não são também mencionados os desafios de implementação destes novos paradigmas educativos, nomeadamente a formação em competências digitais dos professores e dos próprios alunos, até às infraestruturas necessárias para a sua concretização; daí o risco de exclusão digital subjacente. Assim, não estão garantidas quer a universalidade de acesso, quer a universalidade de implementação de uma aprendizagem “personalizada”, tal como idealizada no vídeo. Fica a faltar uma reflexão mais aprofundada sobre o papel das organizações como espaço de socialização e construção coletiva dos saberes, que vão muito para além da aquisição de competências ligadas a uma profissão específica. Como se adquirem e desenvolvem então as “soft skills” que o vídeo menciona?

 

Em conclusão, o vídeo cumpre o objetivo de reflexão sobre a emergência da sociedade em rede e das tecnologias digitais e sobre como estas estão a transformar profundamente as práticas educativas e a função social da educação. Demonstra-se que a aprendizagem já não é feita como uma prática isolada, num modelo vertical (professor-aluno) e individualista: recupera-se a dimensão comunitária da aprendizagem, através dos ambientes colaborativos digitais e interconectados, nos quais o conhecimento é construído e partilhado em comunidade. Permite-se a personalização da aprendizagem, na qual cada estudante pode seguir o seu próprio ritmo, reforçando-se a ideia de “autoformação” – típica da sociedade em rede – por oposição à “heteroformação” – típica da sociedade analógica, pós-industrial. O transmissor passa a ser facilitador e a aprendizagem torna-se comunitária e dinâmica, apoiada (idealmente) em competências que não podem ser automatizadas. O papel do professor evolui para o de mediador, orientador e promotor de ambientes de aprendizagem flexíveis e inclusivos, respondendo aos desafios da sociedade em rede. Seria, no entanto, enriquecedor complementar esta tese com uma visão crítica dos desafios e limitações desta transição, relembrando a cautela necessária à garantia da universalidade do acesso a estas tecnologias e também dos riscos associados a estas “novas” formas de ensino-aprendizagem.

 Nota: Este vídeo é da autoria da Jisc - https://www.jisc.ac.uk/ , a agência digital do Reino Unido, uma organização sem fins lucrativos, para o ensino profissional e superior, investigação e inovação. 

Equipa PI: Lara Ramos, Paula Coelho e Rui Silva



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